JCast

Cultura pop japonesa, só que diferente.

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JCast #210

Updated 6 months ago.

Nesse episódio:
00:00:36 Shoplifters
01:08:12 Mirai no Mirai
02:12:16 Oscar 2019

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"A gente aproveita que não tem ninguém conhecido" era a frase que ficava voltando à mente de Gabriela durante a festa, toda vez que Valéria parava a caminhada das duas para cumprimentar alguém que ela conhecia. E com esses encontros vinham os escândalos, os abraços, os flertes, as mãos bobas... Gabriela tentava não se importar e ficar chapada; ela tentava se entregar para a difusa onda provocada pelas diferentes substâncias que corriam em suas veias, mas algo no ar a incomodava tanto que ela não conseguia desligar seus sentidos, que estavam em estado de alerta máximo; quanto mais ela tentava subjugar e amortecer sua mente, mais ela rugia raivosa, paranoica, barulhenta e conspiratória. Ela queria se sentir grata por não estar sozinha... Ela sabia que precisava de Valéria a seu lado em ocasiões como essa, ainda que algumas vezes desejasse que a amiga sumisse no ar. Ela ressentia a necessidade que tinha pela amiga. Ainda mais quando abandonavam novamente as pessoas encontradas assim que a conversa se tornava mais democrática e menos focada em Valéria; ela tinha uma personalidade magnética e não sabia lidar com uma situação em que não fosse o centro das atenções.

Gabriela sabia que, provendo sua melhor amiga com o que ela precisava, poderia ter a garantia de manter para sempre a reciprocidade de seus sentimentos. E o que Valéria mais precisava era de uma pessoa que estivesse perfeitamente encaixada na rara conjunção entre o interessante e o neutro; alguém que ela pudesse arrastar em suas aventuras malucas e uma companhia que lhe conferisse coragem para seguir em frente, pois a vida sem isso seria tediosa demais. Nenhuma das duas queria estar sozinha, mas Gabriela sabia que a balança nem sempre pendia de forma justa para ambos os lados. Uma parte de si tinha consciência da insalubridade de uma situação em que você permite que alguém pense que está decidindo os rumos de sua vida enquanto você não percebe. Gabriela entendia, no entanto, que a felicidade é rara e não muito garantida, e que se deve agarrar a ela não importa o preço a ser pago.

E então havia Nero. Nero era chato, ele ficava falando de energia. Como a energia de Gabriela sempre estava muito pesada, e misturava no assunto qualquer que fosse a porcaria holística que aprendera naquela semana. Qual fora a curiosidade mística que ele contara naquela noite, assim que avistou Valéria, sua paixão platônica e antiga amiga, e não tardou em ir até ela com seus braços abertos, nus, tatuados e flácidos e com aquela típica estrutura muscular de um quarentão que deixara de malhar havia uns anos? E ele tomava a atenção para si de um jeito que ofuscava a própria Valéria, mas com ele era diferente porque ela não se importava. Com Nero ela fazia aquela cara de genuíno interesse que ninguém mais tinha a honra de receber. Ela nunca prestava muita atenção ao que Gabriela dizia... Não de verdade... Ela apenas esperava com muita diligência seu turno de falar. Ah, sim, Nero naquela noite falara algo sobre um ritual que fazia um anjo aparecer para você no meio da noite e te falar seu nome angelical ou algo assim.

– E meu nome é Melflyn. Significa “O que Ainda não se Cumpriu”. Tem tudo a ver com a minha busca, sabe, com essa vontade constante que eu tenho de aperfeiçoamento.

– Nossa, exatamente! – Valéria interrompia pela milésima vez, um nível acima de empolgação a cada novo “Nossa, exatamente!” que ela guinchava. E então em determinado momento o assunto voltara-se para Gabriela. E Nero tinha essa ideia maluca... E essa ideia parecia haver sido compartilhada previamente entre ele e Valéria, pois trocaram um levíssimo olhar cúmplice antes de Nero voltar seu cavanhaque branco pedante para Gabriela e começar a sugerir formas alternativas de se divertir, desafiar as normas, acessar umas conexões especiais entre a sua mente e alma que só abrem se receberem o nível de adrenalina advindo de um quebrar verdadeiro de regras.

– Eu não vou roubar os meus trabalhos, seus idiotas! – Gabriela gritou antes de ter sua boca nervosamente fechada pela palma suada da mão de Valéria, que arregalava os olhos para Nero, sorridente com aquele chapéu de palha brega e o cabelo branco comprido preso num laço vermelho. Ele era literalmente um vilão de desenho animado, um dândi decadente que hipnotizara Valéria. Ela realmente acreditava que algum progresso espiritual poderia vir através do crime, já que algumas energias se encontravam fora da jurisdição do nosso código moral vigente; mas Gabriela sabia que a amiga só precisava agradar a certos instintos. E Gabriela queria agradar Valéria. A amiga que tanto fazia por ela.

E foi um cordão de ouro bem fininho. A primeira coisa. Ah, Gabriela sentia novamente a quentura descendo pela espinha quando colocou o objeto no bolso, os tremeliques, a vergonha, o medo, o ridículo de se estar tão nervosa por algo tecnicamente tão pequeno... essas sensações aconteceriam muitas vezes ao longo dos meses, com intensidades diferentes e seriam muito questionadas nas ocasiões em que analisavam suas consciências sob a luz de velas e taças de vinho. Em todas as vezes em que falaram sobre como roubar a casa dos riquinhos já não lhes desafiava tanto assim a moral, ao ponto de ter começado a ficar chato. Elas sempre chegavam à conclusão de que valera a pena pelo menos até então, mais pelos benefícios espirituais do que os financeiros. Durante todos aqueles meses Nero ganhara grande parte do crédito (e do dinheiro) por cada uma de suas pequenas missões, ainda que só estivesse presente em algumas poucas cuja ambição e escopo as fizesse requerer ajuda extra.

– Vocês vão sentir o que eu tô falando assim que vocês pegarem alguma coisinha. Experimenta. – era o que Nero dissera na fatídica balada, e Valéria fincara as unhas nas palmas das mãos de Gabriela, tão excitada estava. E agora, no presente, era desse começo o final celebrado. A decisão de pular fora. Pois a presença de Nero se tornava cada vez mais constante, já que suas sugestões (demandas) aumentavam exponencialmente a cada novo roubo. Mas agora Nero não seria mais um problema. Aquela amizade irritante não iria mais acontecer. Ele exigia muito, as colocava em risco e se comportava a cada dia mais como um patrão. Valéria jamais quisera ser parte de um negócio. E até mesmo Nero, com toda a sua influência, não pôde deixar de entediar Valéria; e Gabriela exultava de felicidade, pois finalmente provara a si mesma que era a única constante na vida de Valéria e vice-versa. As duas estariam unidas no topo de uma colina observando o horizonte queimar na chegada do apocalipse.

E por isso Gabriela engolira a pílula de shampoo. Para comemorar a independência, dentro de seu apartamento abarrotado de utensílios e artefatos subtraídos da vida de alguém, ou comprados com o dinheiro que sua venda havia rendido. E ela viajava entre toda a linha do tempo de sua vida, misturando as lembranças boas com as negativas e em dúvida se aquilo tudo teria um propósito. E então ela sentiu um vazio no estômago, um vácuo que sugava toda a sua essência para dentro de si mesma e a regurgitava imediatamente. E ela tentava localizar Valéria no meio daquela névoa sombria e alienígena e não conseguia. E ela nunca se sentiu tão sozinha.

E de repente ela estava mesmo sozinha. Tudo muito silencioso. Alguns veículos passando na rua, apenas, mas... veículos? A essa hora da madrug... isso é a luz do sol? Gabriela teve uma leve vertigem, como a que se tem quando se está prestes a dormir e se acorda bruscamente; e ao final desse momentâneo desequilíbrio ela percebeu que ainda estava em sua casa, mas o sol raiava, suas roupas eram diferentes e apropriadas àquele horário, e seu cabelo estava preso, e ela calçava tênis, provavelmente acabara de chegar da rua... e ela simplesmente não se lembrava de ter alcançado aquele ponto. Aterrorizada, olhou em volta procurando Valéria, mas a amiga não estava mais lá. O colchonete onde ela deveria ter dormido estava arrumado, as colchas dobradas. Bem, ela teria arrumado a cama antes de partir... Que horas eram afinal? Gabriela se sentia uma completa idiota quando finalmente checou a data e a hora em seu celular. E, apesar de se sentir aterrorizada e confusa, também sentia subir pela espinha inconfessáveis níveis de excitamento e curiosidade mórbida quando percebeu que perdera mais de doze horas de memória e precisava telefonar urgentemente para Valéria.

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