Knurd Report

A gente falando um pro outro sobre toda a cultura pop que consumimos no mês.

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Knurd Report #53c

Updated 5 months ago.

00:01:06 Survivor: Edge of Extinction
00:28:07 Umbrella Academy
00:48:19 Russian Doll

Featuring music: Harry Nilsson - Gotta Get Up

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Aquele primeiro roubo fora amedrontador e excitante. Sabe aquela adrenalina que atravessa queimando o caminho por onde passa? Aquele raro e acentuado sabor que têm as coisas verdadeiramente proibidas? De tudo o que era objetivamente criminoso, sem duplas interpretações e cujas consequências eram reais e potencialmente terríveis? Elas poderiam muito bem ter sido presas. – O que fora levado naquela noite? – Ela nem conseguia se lembrar... Algumas joias, talvez... Algo que imaginavam possuir alto valor financeiro no mercado e quase nenhum emocional para o (ex) dono. Algo que não faria diferença para ele ou ela... Além do mais, elas não precisariam fazer isso pra sempre. Era essa a sensação, não era? Era aquela a tal convicção que pulsava no compasso frenético do coração de Gabriela. Não tinha que ser pra sempre. Era só pagar algumas dívidas. Alcançar o Nirvana. Abrir os chakras. Como é que Nero tinha explicado? Enfim... Se divertir um pouco com Valéria, claro. Era o principal. Os melhores momentos eram quando ... que som era aquele? Era ritmo compassado, uma batucada agressiva e estonteante, mas surda e distante, como se estivesse abafada por algodão nos ouvidos. Ok, ok, não importa. Valéria, era por ela, era tudo por ela no fim... mas que porra é essa?

Era o imbecil do Nero. O Nero era um cara que só chegou depois, sabe. Ele se encontrava parado alguns passos adiante, posando pretensioso rodeado de luzes neon de todas as tonalidades, sua silhueta delimitada por uma intensa luz que, apesar de clara e vibrante, trazia a tona aquela sensação sombria do perigo que você sente num beco sem saída no meio da madrugada, dois reais amassados e um celular descarregado no bolso. Aquela sensação teria a ver com o lugar, ou com as lembranças a ele associadas? Gabriela entendia o motivo pelo qual sua mente a transportava para aquele momento no tempo; Enquanto celebrava o fim de tudo, ela viaja através dos começos.

E pelo menos agora o som perdia o abafamento, enquanto Gabriela se abria para a experiência e permitia que aquele reflexo de seu passado se tornasse mais real. A musica aumentara de repente de volume, uma onda de som violando seus tímpanos, uma batida perfeitamente desenvolvida para despertar em cada ser humano suas necessidades sexuais mais primitivas. E Gabriela percebeu que se movia, estava rebolando, ela descia sensualmente até o chão e voltava empinando a bunda, e ela trazia pendurada numa alça através de seu corpo uma caneca de plástico vazia, tirando finalmente uma folga depois de horas sendo preenchida e esvaziada com literalmente qualquer líquido gratuito e alcóolico que ela pudesse encontrar. Seu cabelo estava solto e suado, grudado na testa e no pescoço, e ela usava uma camiseta apertada que deixava uma parte de sua barriga de fora e isso não a incomodava. A bunda coçava com o suor e tudo piorava por causa daquele shortinho curto péssimo que Valéria vinha há anos insistindo que experimentasse, e ela fez isso sem pestanejar, pois naquela noite decidira que seus pulsos não estariam atados por nenhuma amarra social. Ela diria “sim” a qualquer coisa que Valéria propusesse, pois Valéria trazia de brinde toda a segurança de que Gabriela precisava. A pessoa mais aleatória e caótica que conhecia era também a única cujas atitudes ela conseguia prever; Valéria era um defeituoso, porém bem intencionado sistema de navegação para o revoltoso e malicioso oceano da vida real.

Ela se lembra de então virar na garganta umas cinco doses de tequila antes de entrar no imenso galpão onde as luzes piscavam e a dignidade humana não entrava, e logo sentir o efeito intenso do álcool no seu organismo de recém-usuária se misturando com a pressão baixa gostosinha fornecida por tabaco e maconha. O desmaio iminente era adiado graças à injeção de glicose proporcionada pelo pirulito de framboesa rodando em sua língua e compartilhado com Valéria, que a todo o momento a perfurava com seu olhar brilhante e avermelhado, o sorriso ferino e empolgado, os dedos da mão firmemente entrelaçados aos seus e se lembra de sentir nesse gesto a mensagem de amor eterno que fluía entre as duas, agora que a sinceridade emanava de cada poro. Passara a semana toda ansiosa por aquela festa... Vinha sentindo certa urgência em seguir os conselhos de Valéria, que sempre dizia que a vida de Gabriela era chata por escolha própria, um desperdício que seria motivo de arrependimento quando finalmente decidisse se abrir e fosse velha demais pra isso.

Gabriela gostava da sensação de reviver memórias em seu estado natural, quando eram ainda inocentes e livres da mágoa que viria depois; quando Gabriela realmente acreditava que Valéria estava ali por sua causa.

– Eu não aguento mais ficar sóbria. – Era uma frase que Valéria já vinha falando com frequência quando repetira naquela mesma manhã, agora com alguma inquietação adicional, como se realmente o fim estivesse próximo e algo muito ruim fosse acontecer se ela não colocasse catuaba na língua.

– O antibiótico acaba amanhã e a gente pode sair no próximo final de semana. A gente podia ir lá pra casa mais tarde maratonar alguma coisa. Eu comprei pipoca vegana. – Gabriela sugeriu, enquanto varria o chão; elas estavam num aconchegante apartamento num prédio muito exclusivo de quatro apartamentos, todos fechados com exceção daquele, tão cara era a vida no bairro em que fora construído. Já fazia muito tempo que Valéria frequentava os locais de trabalho da amiga, algumas vezes com o consentimento dos contratantes, que era quando se apresentava como ajudante; quase sempre, porém, Gabriela era apenas uma intrusa, tão frouxa costumava ser a segurança em alguns desses lugares. Em ambos os cenários ela não ajudava em nada além de proporcionar companhia, distração mental e maconha.


– Mas toda pipoca é vegana. Não é só milho? – e ela deu um daqueles longos tragos que queimam o papel numa velocidade tão alarmante que deixou Gabriela meio preocupada com a possibilidade de ficar sem o baseado. Largou a vassoura e foi correndo pegar sua parte.

– Ai, eu confundo, é tipo sem sal, pouco sódio, essas coisas. Eu só sei que ela é mais saudável do que uma pipoca normal, tá escrito na embalagem e foi mais caro. E eu comprei no Mundo Verde. – Gabriela explicava ofegante, enquanto tentava pegar o baseado sem sucesso, pois Valéria afastava a mão e pedia mais um trago e prometia passar adiante o mais rápido possível. E Gabriela ria. E esse processo era mais divertido pra ela do que fumar.

– Bora sair hoje? – Valéria sugeriu num rompante de aguda alegria – Você tá precisando, sua cara tá cheia de olheira, você tá derrotada, só trabalha nessa merda. Eu sei que você tava doida pra ir na calourada, eu vi você marcando presença no evento.

– Eu marquei porque achei que você tava querendo ir e você não sai sem mim. – Gabriela pegou o baseado e tragou até sentir a garganta queimar. E por alguns segundos tudo estava em paz.

– Eu odeio sair, você sabe disso. Eu queria ir por sua causa. Eu praticamente não tenho vida própria, eu tô sempre te seguindo.

Gabriela interrompeu no meio a segunda tragada e encarou seriamente a amiga tentando detectar nela algum ar de ironia. Valéria encarou de volta com firmeza e convicção.

– Eu tinha um monte de coisa pra fazer, – ela prosseguiu defensiva, tentando pegar de volta a maconha antes que apagasse, já que Gabriela apenas a encarava, estática, segurando o baseado nos dedos – e eu vim aqui pra você não pirar de tédio. É só o que eu tenho feito. Não tô dizendo que você não faz nada por mim, mas eu não tenho motivo pra fingir humildade quando o assunto é o meu altruísmo.

A própria Valéria terminou a frase com uma risada estrondosa, seguida por Gabriela. Enquanto as lágrimas corriam e Valéria tragava a pontinha que se esvaía, Gabriela se levantou para retomar o trabalho, já um pouco menos incerta a respeito dos rumos que a noite tomaria.

– Você tá certa, eu quero muito ir. E eu preciso que você vá comigo. Não quero chegar sozinha lá, não vai ninguém que eu conheço. Mas o foda é que você não pode beber.

– Eu bebo só um pouquinho. E fumo também. E a gente dança muito e aproveita que não tem ninguém conhecido pra ficar nojenta de suor.

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