JCast

Cultura pop japonesa, só que diferente.

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JCast #212

Updated 6 months ago.

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Ela sempre sonhava com coisas desconexas e muito específicas quando desmaiava, porém dessa vez fora mais pesado que o normal, então ela sonhou com manjericão, com aviões, artigos sobre buracos negros e vasos amaldiçoados...Em algum recôndito cerebral todos esses e outros elementos se conectavam, passavam uma mensagem e colocavam pra fora alguma questão que talvez necessitasse de maior atenção. Somente uma dessas mensagens costumava ser facilmente decifrada, e sua principal preocupação quando foi ao chão também protagonizou boa parte de seus delírios inconscientes; E era sobre o maldito vaso amaldiçoado que ela pensava enquanto lentamente recobrava os sentidos e segundos antes de sentir uma dor aguda na cabeça, aquela dor que só ocorre quando seu corpo bate no chão sem encontrar nenhum tipo de resistência, a dor que alguém sentiria se estivesse ressuscitando, talvez...Gabriela sonhara também com ressureição, ela agora se lembrava; ela sempre se lembrava dos sonhos mais absurdos primeiro, se perdia em detalhes de dois ou três deles e em segundos os esquecia por completo. E agora qualquer outro sonho era esquecido imediaramente, afogado pela urgência da situação assustadora e desconhecida em que se encontrava.

Gabriela se via incrédula, quase boquiaberta, sem sequer saber como traduzir no rosto as novas emoções que cruzavam seu corpo, enquanto sentava no chão agora vazio de seu apartamento quase totalmente vazio, repentinamente espaçoso agora que mais da metade do lixo inútil que guardava havia desaparecido. Ela correu os olhos de um lado a outro do cômodo, tentando lembrar de todas as coisas que antes estiveram ali, a fim de conferir a veracidade da profecia, e notar que apenas itens relacionados a seus crimes haviam sumido; Tais itens eram tão numerosos e sem importância que perceber seu sumiço seria desafiador até mesmo para uma garota que não tivesse acabado de quase sofrer um traumatismo craniano. Algumas faltas eram mais obviamente sentidas que outras, como o relógio cuco acima da TV, que por acaso ainda estava ali, a despeito de também ter sido adquirida com dinheiro de proveniência ilegal. Talvez Gabriela devesse ficar olhando pra ela, pra ver se realmente desaparecia no ar. Talvez se a TV quebrasse o padrão e permanecesse em seu devido e lógico e previsível lugar, Gabriela teria a prova definitiva de que não estava sendo punida por forças sobrenaturais. Talvez ela estivesse mesmo precisando do suco detox e tudo fosse uma alucinação. Se pelo menos conseguisse falar com Valéria, poderia esclarecer o que havia acontecido nas horas perdidas.

Olhando em volta, ainda meio zonza, Gabriela percebeu que o celular de Valéria provavelmente voltara ao lugar em que pertencia, ou seja, diante do rosto obcecado de sua amiga. Ele não mais estava caído no chão, o que dava credibilidade à teoria de que tudo era alucinação e garantia então a Gabriela o direito de ligar de novo para a amiga. Ela pegou seu telefone, iniciou a chamada e os toques começaram. Ela nada ouvia no recinto, ainda bem, e começava a pensar aliviada que talvez o desmaio tivesse ajudado a sacudi-la de volta para a realidade.

A sensação de frio na barriga que Gabriela teve quando os toques pararam e ouviu um certo ruído de carros passando e vento soprando era sem precedentes; por alguns segundos ela não sabia se a ligação fora atendida ou caíra, se os ruídos eram mesmo de um lugar real ou apenas estática interpretada erroneamente por ouvidos esperançosos. E então seu sofrimento entrou em um momentâneo hiato.

– Alô, Gabi?

– PUTA QUE O PARIU, VALÉRIA! – Exclamou Gabriela, tão nervosa que nem estranhara o fato de que Valéria não atendera com "Fala, piranha", e quase nunca a chamava por "Gabi". Ela não diminuiu o tom enquanto colocava-se de pé cambaleante, sentindo que precisava fazer Valéria sentir-se espancada apenas com o poder de sua indignação. – PORRA MANO, cadê você? Caralho, estão acontecendo coisas aqui e eu preciso ter certeza de que não é uma pegadinha idiota do Silvio Santos e você tem que me ajudar!

Gabriela sentia-se idiota por de fato ver sentido na ínfima probabilidade de que estivesse apenas sendo enganada e filmada para o entretenimento de milhões de senhoras idosas por todo o país, e transmitida ao som de comentários problemáticos e provavelmente sexistas do Silvio Santos, mas de alguma forma isso meio que era a única explicação...

– Gabi... – O que era aquilo na voz de Valéria? Uma certa condescendência, uma pitada de impaciência, talvez, ou um pouco de vergonha? – Eu não posso falar agora, mas você precisa se acalmar...

O vazio na boca do estômago de Gabriela quase a levou novamente ao chão. Era aquela pressão baixa gostosa de quando fumava um Gudang pela primeira vez depois de algumas semanas... Ela precisava desesperadamente de açúcar, e amaldiçoava a maldição que levara seu "Jarro das Porcarias", um vaso feito de sucata por uma artista plástica que mantinha suas peças menos favoritas acumuladas num monte de lixo tão grande que poderia ser considerado ele mesmo uma instalação artística, caso a artista em questão tivesse um mínimo de espírito empreendedor, segundo Valéria; “Vamo levar isso só de sacanagem” ela sugerira, e desde então o estiloso vaso guardava desde balinhas coletadas no uber até pirulitos comprados na balada, além daquele chocolate belga caro que elas nunca comiam porque precisavam de uma ocasião especial... o demônio poderia ter levado o vaso e deixado os doces, mas talvez destruir a comemoração fizesse parte de sua agenda...

Fugir para questões assim era um dos mecanismos de defesa de Gabriela: ao perder tempo dando iinjusta importância aos detalhes mais absurdos de uma situação, ela fugia do fardo de ter que lidar com suas reais e inevitáveis consequências. Nesse caso, porém, ela sacudiu a cabeça e se recusou a ceder para esse macete, pois realmente precisava de respostas e estava cansada de se deixar levar por Valéria.

– Valéria, me fala agora – exigiu Gabriela entre os dentes, saliva escorrendo de tanta fúria – que porra é essa que tá acontecendo? Metade do apartamento sumiu e eu vi as coisas desaparecendo! Eu não lembro de nada desde o momento em que você me deu a parada e eu preciso saber o que aconteceu, me conta agora! Porque você não tá aqui?

Fora uma pausa longa demais, cinco segundos que Gabriela percebia como horas excruciantes, pois em sua opinião Valéria não deveria se dar ao luxo nem de respirar. Gabriela não conseguia conter seu ódio, um egoísmo latente que costumava ser domado por Valéria, mas agora crescia selvagem, alimentado pela longa repressão e a urgência do momento.

– Gabi, eu não tô podendo falar agora. Mas é isso, a gente ficou doida, zuamos pra cacete, e eu tive que ir embora, lembra? Você é tãp quadrada que não consegue nem curtir uma onda bizarra sem achar que enlouqueceu... – Valéria parecia estar apressada demais, nervosa, como alguém que precisa muito terminar um assunto contigo porque está apertado para ir ao banheiro.

– Eu não lembro de nada! Literalmente de nada! E aonde você tá? Vamos se encontrar, volta aqui em casa, por favor... – Um instinto primitivo despertara novamente a educação em Gabriela, pois lá no fundo sentia a dura realidade que era não ter nenhum poder de barganha; se Valéria assim quisesse, nenhuma explicação seria dada. Gabriela aprendera ao longo dos anos a apertar os botões certos quando precisava que a amiga fizesse algo por ela, pois Valéria não gostava de sentir-se coagida. Pelo menos não por Gabriela...

– Olha, eu não posso mesmo. Mas é isso a gente... – ela baixou a voz, incomodada – ...quebrou o vaso. O da maldição, lembra? Daí a gente ficou desesperada, e jogou ela fora, e brincamos um pouco sobre como agora tudo ia ser tirado da gente e coisa e tal... olha, a onda já tinha quase ido embora quando esse rolê acabou, eu não faço ideia de como você conseguiu perder a memória, eu avisei que você via muita novela mexicana...

– Valéria, pelo amor de Deus, vem aqui. Me responde logo, onde você tá? – Interrompeu Gabriela cheia de frustração ao sentir a barreira emocional rompendo, um tom choroso patético se infiltrando na voz.

– Porra, Gabriela, eu também fiquei com medo, né?! Você estava paranóica e apavorada e você sabe como você fica chata! E dessa vez além de chata foi muito convincente, e eu tive que ir embora pra ver aqui em casa se tava tudo ok! Eu acho que tava meio chapada ainda, eu sei lá... só sei que acreditei que talvez pudesse acontecer algo mesmo, sabe?

– Você me deixou em casa acordada?

– Muito mais que isso, você tava sóbria... olha, eu realmente tenho que ir...

Gabriela tentava segurar o tremor na voz, a barreira quase deixando tudo jorrar. Maldita Valéria conseguira finalmente ver a única parte que Gabriela que se permitira mostrar, aquele lado frágil e fraco e tedioso que afastaria qualquer um, que impediria que a amassem, ainda mais Valéria que se entediava tão fácil de todo mundo... Valéria não se associava por muito tempo com alguém que fosse deprimente, pessimista, aborrecido.

– PARA DE FALAR QUE VAI DESLIGAR, PORRA! – as lágrimas rolavam em suas bochechas inflamadas – Onde você tá agora?

Talvez ter escondido suas fragilidades por tanto tempo tenha sido favorável a Gabriela nessa ocasião em particular, pois aquele seu comportamento era tão inesperado que realmente parecia ter desconcertado Valéria a ponto de momentaneamente afugentar seu escudo de ironia e cinismo.

– Olha... acho que é isso, o vaso é real, as coisas sumiram do meu apartamento também. Tudo isso é muito estranho.

E agora que Gabriela finalmente fizera Valéria ceder em algo, sua felicidade era tolhida pela desconfiança que a mudança abrupta provocara; Gabriela era paranóica e chata, não era? E Valéria cedera fácil demais.

– Você tinha trazido tudo pra cá, lembra? Pra comemoração? Por acaso você deixou algum item na sua casa?

– Sim, ficou o... aquele pano de prato, sabe, aquele com "Melhor neta do mundo" ou "universo" bordado a ouro...?

Gabriela lembrava muito bem do pano de prato decorativo bordado a ouro roubado de uma patricinha muito confusa mas extremamente gentil que de fato usava-o para secar pratos e não era portanto digna de possuir tão delicado item. Gabriela deveria ter sentido pesar pelo sumiço do pano, um item essencial lembrado com muito afeto, tão valioso comercial e emocionalmente que era por elas reservado para as coisas mais banais e nojentas. O item era tão especial que Gabriela lembraria na hora que ele jamais estivera na casa de Valéria, caso sua atenção não tivesse sido sugada pelo sussurrado “sua idiota!” que ela pensara ter ouvido segundos antes de Valéria começar a falar. Talvez fosse durante esses segundos que o desespero de Valéria produzira tão vagabunda mentira.

– Tem alguém aí com você? – Gabriela perguntou petulante e inquisitiva, falhando em tentar parecer casual. Temerosa por perder a boa vontade da amiga, Gabriela tentara emendar outro assunto antes de ser interrompida por ela:

– O Nero tá aqui. – De alguma forma Gabriela sabia que era verdade, pois se Valéria fosse contar uma mentira para acalmá-la, certamente não escolheria aquele nome – Ele queria falar comigo, eu sabia que você não ia gostar... desculpa, amor, eu não queria ter te assustado... olha, eu não sei o que deve ter acontecido, eu só sei que... – a voz começava a sofrer certa interferência, e Gabriela sentia o coração pulsando forte no peito enquanto caminhava pelos dois cômodos da casa, pensando ver sombras das coisas que ali estiveram, vultos esverdeados e nebulosos das provas de seus pecados. – eu não sei... o vaso talvez ... mas não tem nada a ver com...

Gabriela não falava nada, apenas tentava prestar atenção nas frases entrecortadas, dando uma chance para a ligação se estabilizar, porém ela acabou caindo de vez.

O celular quase foi lançado à parede, tão frustrada Gabriela estava enquanto mordia os lábios respirando fundo tentando controlar suas emoções. Ela não sabia o que estava odiando, ou a quem, e a isso se juntava a confusão por ainda não ter entendido o que acontecia.

E então pensou sobre como tudo o que fora fruto do roubo havia sido lhe tirado e que talvez sua amizade com Valéria fosse vítima disso. Elas certamente ficaram muito mais próximas, depois de um tempo afastadas, e o amor entre as duas ganhou novas formas e contornos e nuances advindos daquela adrenalina, daquele segredo compartilhado, daqueles crimes que as tornariam legendárias para si mesmas, como se fossem uma sequência de Thelma & Louise que jamais seria assistida por ninguém. Valéria era tudo o que Gabriela sempre desejara em uma pessoa, a primeira amizade incondicional, forçada pela situação, porém isso não importava.

Gabriela colocou o celular do bolso, pegou suas chaves que agora estavam caídas de qualquer jeito em cima da cômoda (antes elas eram penduradas em um artefato rústico produzido para aquele fim e também roubado daquela artista plástica descuidada) e saiu batendo forte a porta atrás de si.

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