Knurd Report

A gente falando um pro outro sobre toda a cultura pop que consumimos no mês.

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Knurd Report #54d

Updated about 1 month ago.

00:01:45 Desabafo do Laivindil
00:23:10 The Chilling Adventures of Sabrina - Season 2

Featuring music: Blaya - Faz Gostoso e Ariana Grande - 7 Rings

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A situação era tão surreal que talvez pudesse estar sonhando. Ultra lúcido sonho, mas ainda assim era uma possibilidade. Tinha aquele filme rotoscopiado que vira certa vez, e com ele aprendera sobre a impossibilidade de focar em pequenas coisas quando se está sonhando, como ler mensagens, por exemplo, ou apagar e acender as luzes. A teoria do sonho fora refutada, porém, pois estava nesse momento checando seu celular atrás de mensagens novas no Whatsapp; Nunca se utilizara muito das redes sociais para nada além de trabalho, e não havia novas mensagens de Valéria; Tudo bem que sua vista entrava e saía de foco levemente enquanto deslizava o touchscreen atrás do número da amiga, mas isso não prova definitiva de que estava na verdade alucinando enquanto dormia naquele finíssimo tapete tigrado brega comprado com o dinheiro de um candelabro muito mais bonito que Valéria decidira não ser irônico o bastante para a decoração do apê e que por isso deveria ser vendido ao invés de mantido.

Gabriela pressionou o contato de Valéria e logo o telefone começou a chamar; O estranho era que Gabriela podia ouvir o toque do celular da amiga ali mesmo no cômodo, talvez por estar tão familiarizada com aquela música que costumava ser boa quando a ouvira ser cantada pela Beyonce meses atrás, porém agora se tornara irritante devido ao número de ligações que Valéria recebia o tempo todo. Admiradores ou clientes, todos ganhavam a mesma música, pois Valéria dividia com Gabriela a preguiça com configurações de equipamentos eletrônicos. E então o telefone chamava mais vezes e caía na caixa postal, e Gabriela repetia a ligação, o corpo todo trêmulo, a pressão baixando, as palmas das mãos suadas atrapalhando o manusear do telefone, as pernas doídas devido a posição pouco cômoda em que se abaixara e que só não trocava por não ter se dado conta da dor, tão estressada estava por não conseguir completar a ligação e não parar de ouvir o toque irritante do telefo...

Ela encarava lívida o iPhone 5 de tela rachada clichê que Valéria possuía por achar charmoso e kitsch, depositado em cima da cômoda logo a sua frente. Sentia-se absurdamente estúpida por não ter percebido antes que o toque que pensava ouvir em suas memórias acontecia literalmente naquele mesmo cômodo. Rindo por dentro, bufando por fora e, ao se levantar e perceber a lancinante dor em seus joelhos e panturrilha, sibilando intempéries aos deuses, ela foi até o telefone, e cada passo trazia mais lucidez, e com mais lucidez vinham prioridades mais urgentes tais como o paradeiro de Valéria e uma explicação para ter abandonado ali seu precioso telefone.

Foi então que Gabriela estendeu a mão para pegar o telefone e seus dedos se fecharam no ar. Seu punho estava cerrado segurando absolutamente nada e por meio segundo Gabriela sentiu-se ligeiramente confusa, perguntando-se porque o telefone não aparentava estar em sua mão, já que claramente ele estava naquela cômoda. Foi então que esse meio segundo passou e sua ligeira confusão fora promovida; pois o telefone não estava mais em cima do móvel e não se via nem mesmo o pouco de poeira que provavelmente se acumularia embaixo dele. Era como se houvesse desaparecido no ar, já que Gabriela lembrava com clareza de Valéria colocando o aparelho ali em cima na noite anterior e dizendo que ali ele ficaria, pois não queria se distrair com eletrônicos durante essa celebração. Aparentemente era um grande desperdício gastar alguma onda alucinógena na timeline do Facebook.

"Eu estou mesmo alucinando", realizava Gabriela, tanto a música da Beyonce como o telefone em si, e então cambaleou ligeiramente para trás, sentindo um zumbido nos ouvidos, como microfonia, e se dando conta de que talvez ainda restassem no sangue traços da droga que lhe roubara os sentidos. Era mais do que lógico que o efeito de algo tão obscuro tivesse repercussões ainda mais inesperadas em seu organismo, então a confusão de Gabriela tornou-se apenas vergonha e medo de que ocorresse algo pior do que alucinações envolvendo um smartphone quebrado.

Ainda manuseando com dificuldade seu telefone, ela mais uma vez discou o numero de Valéria, e dessa vez o toque não se fez ouvir no ambiente e Gabriela respirou aliviada por não ter que mais uma vez encarar o medo de não possuir plenamente o controle do próprio corpo. Talvez fosse melhor assim que possível lavar suas entranhas com algum suco detox que misturasse ingredientes tão bizarros e indigestos que os resquícios da droga fugiriam ofendidos com tamanho mal gosto, e começou a lembrar das diversas receitas que arquivara em uma pasta no Pinterest quando o baque surdo de um objeto caindo e trincando no piso de madeira a tirou do transe; num pulo ela se virou pra trás, um dos braços instintivamente estendidos com a palma da mão pra frente a guisa de escudo, o celular firme na mão atrás de si, como que pra proteger do fantasma assaltante; era um Xiaomi 9 e ainda estava sendo pago.

Refletindo na lente rachada da câmera traseira um fio de luz solar que adentrava pela janela, o iPhone 5 brega de Valéria reaparecera estatelado no chão, pequenos cacos em volta sugerindo um novo estrago, como se tivesse caído de uma considerável altura. Era como se tivesse se materializado e ido diretamente de encontro ao chão, sem nem uma pequena pausa no ar como nos desenhos animados. A ideia de tomar o suco e desinfetar suas veias de qualquer resquício de droga mais uma vez se manifestou em sua mente, já que não havia explicação racional para o que acontecia. O telefone não teria movido sozinho de um lugar para o outro; ela teria levado o celular e o derrubado no chão, ou estaria tendo visões aleatórias? Assombrada, andando na ponta dos pés, ela se aproximou do aparelho, se inclinou e estendeu a mão, que mais uma vez se fechou no ar.

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