JCast

Cultura pop japonesa, só que diferente.

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JCast #211

Updated 5 months ago.

00:03:45 Ultraman
00:19:27 Fruits Basket
00:36:10 Carole & Tuesday
00:48:35 Fairy Gone
00:57:45 Sarazanmai
01:14:27 Robihachi

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Certa vez as amigas assistiam a filmes de terror pertencentes a uma coleção selecionada com esmero por um caprichoso e pretensioso curador, certo estudante de cinema que contratara os serviços de limpeza de Gabriela graças à generosa fama que já a precedia; elas deveriam limpar cuidadosamente os estojos que alojavam os BluRays e DVD’s e tornar a depositá-los em seus respectivos vãos nas estantes que cobriam todos os cantos do apartamento. A opressiva e claustrofóbica sensação que emanava do recinto indicava claramente que seu morador não deveria se dar ao luxo de ignorar a praticidade dos armazenamentos online, no entanto ele jamais se sentiria verdadeiramente proprietário de um filme se este existisse em um ambiente virtual remoto, podendo desparecer a qualquer momento por conta de inúmeros fatores, talvez alguns ainda nem inventados. Ele amava seus preciosos discos, e as garotas amavam assistir a eles nas horas em que deveriam estar limpando-os.

– Já notou, – não parava de tagarelar Valéria, que não conseguia focar em nenhum vídeo superior a dez minutos de duração, o que a fazia fiel seguidora de dezenas de youtubers, a maioria canais sobre teorias da conspiração que se utilizavam apenas de um slideshow de imagens em baixa resolução e a narração robótica e infelizmente cômica da voz do Google – Que as pessoas nunca reagem como a gente reagiria se visse mesmo um fantasma ou alguma coisa sobrenatural na nossa frente? Eles tipo assim... sei lá, aceitam muito fácil. Tipo, dá um grito e tals, mas depois já tá acostumada com a situação, pesquisando uns livros, batendo na porta do exorcista cético e desiludido com o exorcismo...

– Sim, mas daí ele vê que dessa vez é pra valer e passa a acreditar de novo...

– Sua fé é testada.

– E no fim, geralmente, o que a gente acha que pode ter uma conclusão racional, não tem. Porque fica a dúvida né? Isso é real ou não? Tipo essa mulher do filme, ela ou tá possuída ou a mãe dela tá certa e ela só tá doida. Mas isso é idiota porque a gente sabe que ela tá possuída mesmo, é mais legal que seja um demônio.

– Ou a mãe é o demônio.

– O demônio do gaslighting.

E quando Valéria não estava dividindo sua atenção entre o filme e o celular, conseguindo ler notícias sobre celebridades e comentar clichês cinematográficos ao mesmo tempo, ela encarava sonhadora um vaso verde entalhado com runas carnavalescas que denunciavam sua verdadeira origem: o cenário de alguma produção barata da faculdade de cinema de seu dono; mas Valéria parecia acreditar nas propriedades místicas do vaso, não por influência do número de filmes de terror que assistíamos ou demais antiguidades bizarras que decoravam o apartamento, mas por causa do maldito Nero. Pedante como sempre, olhara o vaso certa vez em que estivera presente na sessão de filmes, e assim que se aproximou da peça reagiu de forma grandiloquente tapando a boca com as mãos em concha, tomado por tremores e arqueando o corpo enquanto tropeçava para trás, provocando inicialmente riso em Gabriela, que tornara a ficar séria assim que não encontrou cumplicidade no rosto verdadeiramente chocado e preocupado de Valéria, que correu para acudir seu amigo.

– Esse vaso vocês nunca podem pegar. Ele é justamente anti-roubo, armadilha pra ladrão. Ladrão que rouba ladrão... O pó que tem dentro dele serve pra equilibrar a balança do universo, tá ligado? Você perde tudo o que você tomou pra si. Esse vaso é o justiceiro original. – dissera Nero claramente inventando na hora qualquer coisa que fizesse Valéria babar.

Gabriela pensou em como pessoas reagiam a absurdos assim nos filmes e deduziu que mesmo as reações mais falsas poderiam muito bem acontecer na vida real; pois Nero dera sua explicação naquele tom assombrado e melodramático com que usaria com crianças de noite em torno de uma fogueira e ainda assim Valéria dava a cada palavra o benefício da dúvida, tratando-as com respeitosa atenção.

– Esse cara é um colecionador! – apontava Gabriela, exasperada, indicando os cantos do apartamento com os braços – Ele tem váááárias tranqueiras de filme de terror! Essa é só uma tranqueira, gente. De onde você tirou essa história, mano?

– Isso aqui – alertou Nero, estranhamente mais sério e sem aquele ar bobo, agora que se dirigia diretamente a Gabriela, o que lhe causou certo desconforto – Não é tranqueira de filme. Essa peça é de verdade, eu já vi ela antes. Já aconteceu com um mano meu. Essa aqui vocês não pegam.

E naquele momento tudo o que Gabriela mais queria além de viagens pela Europa e contas bancárias ilícitas contendo saudáveis quantias de dinheiro que forneceriam conforto e despreocupação para ela e seus pais, era possuir o maldito vaso mal assombrado que poderia por tudo isso a perder. Mas ela não estava num filme.

Aquilo era a vida real. Roubar aquele vaso é o que pessoas reais fariam. A sensação não seria tão difícil de superar, aquela dorzinha no coração que dá quando você ignora um TOC ou resolve ligar o foda-se e passar embaixo da escada; Ela iria uma última vez ao apartamento, dessa vez sozinha; ela daria um jeito de roubar o vaso, mesmo que esse não estivesse na sua lista de itens “roubáveis”: era muito grande e relevante para a casa e aquele poderia ser o furto que as colocaria na prisão.

Na sua tentativa boba de bancar o guru e ver Valéria salivar, Nero causara o que deveria evitar... Gabriela queria fazer aquilo apenas para contrariá-lo e agora que Gabriela via-se diante de um dilema aparentemente sobrenatural, se perguntava como deveria agir. Como pessoas reais agiriam ao esquematizar o roubo de um objeto aparentemente amaldiçoado? Qual sensação dominaria seus corpos ao ver um celular desaparecer em pleno ar?

Gabriela ainda não processara totalmente o que sentia, mas um instinto primitivo tomou controle e ela apenas procurou em volta pelo vaso amaldiçoado que roubara por rebeldia, que mantivera escondido até Valéria terminar com Nero e parar de acreditar em seus disparates holísticos, conseguindo desde então exibi-lo com orgulho na mesa da sala. (ela criara uma réplica do vaso, substituíra o original e “acidentalmente” deixara-o cair durante a limpeza, reduzindo-o a cacos impossivelmente minúsculos que desafiavam as leis da física. Aparentemente o dono acreditou, ou pelo menos fingiu acreditar, feliz como estava em se ver livre do objeto que de fato fora conseguido no acervo da faculdade.)

Porém na mesa apenas o a poeira onde antes estivera o vaso; O entorno onde o vaso era exibido estava polvilhado com punhados da terra que o preenchia. E, logo atrás, o quadro de um sol pintado à mão com dedicatória, feito sob encomenda para uma de suas clientes numa viagem a Salvador, e que agora estava pendurado em cima de um pinguim de biscuit, o que para Valéria era uma piada muito engraçada, simplesmente desaparecia da vista, deixando também na parede nua o quadrado poeirento de sua memória.

O pinguim se foi logo depois e Gabriela fez o que pessoas reais fazem ao se deparar com o sobrenatural: desmaiou batendo forte a cabeça no chão, queda que deveria ter sido amenizada por aquele felpudo tapete tigrado comprado com o dinheiro do candelabro roubado, mas que infelizmente já havia desaparecido do chão minutos antes sem que a garota tivesse percebido.

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