JCast

Cultura pop japonesa, só que diferente.

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JCast #209

Updated 7 months ago.

Nesse Episódio:
00:01:48 Gaikotsu Shotenin Honda-san
00:05:30 Banana Fish
00:21:25 SSSS.Gridman
01:01:52 Kamen Rider OOO

Gabriela trabalhava com o que ela chamava de “Faxina Gourmet”. Um belo dia, sentada num local que em 2005 teria sido chamado de “cyber-café”, lendo os classificados no jornal e evitando circular anúncios com sua esferográfica azul para evitar a vergonha de completar o “desempregada starter pack”, ela teve a bela ideia de fazer faxina em apartamentos pequenos de gente rica e solteira. Talvez um cachorro pudesse até entrar na equação e talvez ela pudesse ocasionalmente lavar e podar dito cachorro, mas não iria querer lidar com gatos. Ela chegaria rigorosamente vestida de Mary Poppins dos trópicos, com a camisa bem abotoada feita de fábrica mais adequada ao calor brasileiro e alguma alternativa ao saião de crente que, apesar de fresco, não lhe caía bem nos quadris; ela estaria carregando uma maletinha de plástico bruta e prática, como uma grande caixa de ferramentas, que contrastaria com seu corpo franzino mas passaria o respeito necessário para compensar a sua aparente falta de experiência.

A maleta teria vários compartimentos, como as caixas de ferramenta tradicionais, mas ao invés de chaves-de-fenda ela conteria os mais diversos objetos ligados a limpeza. Os pincéis e esponjas e pequenos esfregões apropriados a diferentes superfícies, um tipo de limpeza que seria desnecessária para a maioria das pessoas e até exagerada para outras, mas que encheria os olhos de playboys, socialites e alpinistas sociais de pequeno porte, que nunca teriam ouvido falar de tal serviço e por isso mesmo estariam dispostos a pagar taxas premium para ter o que comentar com os amigos no final-de-semana em Búzios (eles seriam mais posers do que realmente ricos). E esses amigos ficariam com inveja e também pagariam por sua diária e ela estaria a semana toda ocupada fazendo o mínimo e ganhando o máximo em apartamentos tristonhos e modulados, parecidos com cenários de TV, que raramente viam seus donos, ocupados como estavam sendo adulados por guiarem exitosamente e em tão tenra idade seus empreendimentos de sucesso, ou simplesmente treinando pilates (Pilates se treina?).

E todo esse refluxo azedo de velhas lembranças recentes só se avolumava em sua garganta porque, sob o efeito daquela cápsula que mais parecia um produto da Natura feito para estourar no dedo e passar nas olheiras, ela havia se tornado a própria maleta jogada no canto. Aquela velha maleta que usara nos dois primeiros meses de seu negócio, os únicos meses em que ele funcionou de forma agonizante e patética antes de simplesmente morrer como a péssima ideia que sempre fora. Isso não era o mesmo que dizer que seu empreendimento de nada servira, pois o projeto fora revitalizado e reformulado por Valéria, que lhe dera uma diferente forma e propósito. Assim como Gabriela irradiava sua consciência até cada ranhura da grande e bruta cômoda de mogno que abrigava e mofava suas roupas, pintada com técnicas de pátina por certo pintor que se empolgara demais num serviço que deveria ser simples e nada artístico, ela também se sentia conectada com sua melhor amiga, habitava seu corpo, era bombeada de seu coração para o cérebro através de todas as vias possíveis e saía por suas orelhas em absurdos jatos intermitentes que poderiam ser tanto algodão doce como ejaculação masculina cor-de-rosa. Nada disso fazia o menor sentido, porém cada nova conexão estabelecida com uma pessoa ou objeto trazia de volta memórias de sua história juntos. Estar em sintonia com Valéria trazia também um novo e estranho entendimento acerca da natureza de suas intenções.

Naquele momento ela não se focou em lembranças de como se conheceram fisicamente; esse episódio empalidecia quando comparado ao dia em que se conheceram realmente. Nem mesmo as festas que realizaram nas casas de seus clientes enquanto estes estavam fora, chamando sempre um pequeno grupo de amigos, desfrutando da jacuzzi, fumando maconha e explorando o closet haviam sido tão divisoras de águas quanto aquela noite.

– Diz que nesse condomínio tem um “Banho grego” e eu admiro o visionário que considerou a forma específica de tomar banho na Grécia um produto de exportação. – Valéria dizia enquanto passava os olhos pelo apartamento, descalça e evitando encostar nos objetos, já que tinham pouco tempo para arrumar tudo e eles tinham regras pétreas no que concernia à limpeza da cena do crime. Após cada encontro furtivo em um desses bangalôs do paraíso, tudo tinha que estar não só como antes, mas melhor que antes, já que em teoria Gabriela estivera faxinando a casa ao invés de ter passado a tarde toda brincando com seu óculos de realidade virtual sob efeito de alucinógenos leves. A casa era limpa e organizada num ritmo ensaiado batizado por Valéria de “Protocolo Cachinhos de Ouro”. Ainda assim Gabriela não tinha tempo de devolver a casa em um estado perfeito o suficiente para justificar sua gorda comissão e o futuro exigia medidas drásticas.

– Eu não sei se a gente devia tá fazendo isso. Não tem câmera nenhuma no corredor, então eu suspeito que tenha muitas câmeras no corredor. – Ponderou Gabriela só para mudar o rumo da prosa e afugentar da mente a associação escapista que fizera entre o banho grego e outra modalidade de coisa grega que naquele momento não vinha ao caso, mas que ela apreciava com fervor.

– Você precisa aceitar e entender que eu nunca vou fazer nada que prejudique a gente. Cada uma de nós faz peso num lado desse barquinho precário, e um movimento em falso ele vira e nós duas morremos afogadas. – filosofou Valéria naquele tom pedante que Gabriela conhecia e ocasionalmente desprezava.

– Eu morro bem mais que você, é sempre assim que acontece. Sempre que você tenta sequestrar a situação e se tornar a protagonista das coisas que eu tento fazer com a minha vida.

– Eu dou sugestões, é diferente. – argumentou Valéria toda condescendente, ajeitando a franja no reflexo do vidro que protegia uma coleção de pequenos troféus – Você fica com medo de recusar minhas sugestões porque sabe que viver no meu mundo é viver da forma certa. – Gabriela revirou os olhos e turbinou o espanar de um grande e luxurioso vaso com toda a força do seu mais profundo ódio.

– É melhor você parar de falar antes que minha raiva quebre alguma coisa. E se é pra quebrar algo, melhor roubar logo.

– É pra isso que a gente tá aqui. Mas esse vaso não. Pequenas coisas, lembra? A gente se preocupa com o valor sentimental dos objetos. Um vaso que parece o contêiner amaldiçoado de um demônio hindu certamente é algo de muito valor pro dono e ele vai sentir falta. Não é exatamente sutil.

– Sim, é só por isso que a gente não vai levar esse vaso enorme debaixo do braço. Pela bondade em nossas almas.

– E porque pode muito bem ter um demônio aí dentro. Nós não queremos ser o tão esperado spin off feminino de Supernatural.

Ufa! Que emocionante não é, amiguinhos? Quase esquecemos o verdadeiro propósito desse post, que é falar sobre animes que terminamos de assistir! Temos porém as regras da casa, e vocês precisam prestar atenção

- Banana Fish é massa
- Um desenho tão hétero merece um adjetivo bem hétero
- SSSS.Gridman. Me explicam os S’s mas eu nunca aprendo.
- Mesma dificuldade com relógio de ponteiro.
- Falamos de Kamen Rider nesse episódio
- Sério, um legítimo spoiler-free (no real sentido da expressão) review de Kamen Rider
- Afinal, é um posview, eu acabei de ver, é japonês
- Honda-san versus Aggretsuko, que tal?
- Tô tão desanimado pro Oscar
- Só tem filme chato
- Queria que viesse logo os filme bom
- Muito bom falar do CGI de Gridman pra tirar o gosto de Egao no Daika
- Hoje tem menos avisos. O texto é enorme
- Busquem conhecimento
- Gente acabei de ter ideia pra tatuagem
- "Busquem conhecimento", no pulso ou no antebraço

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